Mensagem do doador

Texto (adaptado) da autoria do doador, o médico ortopedista, Joaquim Leitão Couto, e que faz parte do desdobrável de inauguração do Museu da Tanoaria.

“Instalado dentro do Parque Biológico Serra da Lousã, o Museu da Tanoaria apresenta uma coleção privada, com cerca de cem peças, doadas pelo médico ortopedista e ex-presidente da câmara de Penacova Dr. Joaquim Leitão Couto. Este espólio foi recolhido ao longo de décadas, por todo o país, numa homenagem aos Tanoeiros de Portugal.

Apesar do cimento e do aço inoxidável, quem quiser produzir vinhos e aguardentes não só em quantidade mas em qualidade, terá de o fazer em madeira, numa grande harmonia entre o trabalho do Homem e a Natureza, levando às necessárias transformações físicas, químicas e biológicas.

Quem sabe se a Tanoaria, sendo uma atividade do passado, não tem futuro, embora em moldes e mecanismos modernos. Achámos por bem que as gerações futuras, através deste Museu, possam saber como o tanoeiro trabalhava, garantindo assim que, como sempre, os homens e os criadores passam, mas a criação e as obras ficam. Ficam os materiais, as ferramentas e as obras (dornas, balseiros, barris, cascos e tonéis) destes carpinteiros especializados, para os quais, muitas vezes, o metro era a palha tábua e o lápis era o giz, tirando as medidas a olho, dispensando o nível e o esquadro, permitindo assim uma extrema rapidez de execução dos trabalhos, frequentemente objeto de empreitadas para a construção de vasilhame, para exportação.

A melhor madeira para o efeito parece ser o carvalho, não de tipo americano (cujos componentes são demasiado absorvidos pelo vinho), mas de tipo francês. A mais utilizada parece ser o castanheiro, por ser mais barato, mais leve e mais fácil de trabalhar.

As caves, embora mostrem aos visitantes as cubas em aço inoxidável, salientando o vinho biológico, não deixam de saber que esse vinho, apesar de biológico (ou por ser, talvez, demasiado biológico), nunca adquire as qualidades de um vinho que absorveu as características organoléticas da madeira e a que a porosidade da madeira deu uma oxidação natural de que resultaram a cor e o paladar.

Por isso, não deixam de mostrar aos visitantes as vasilhas em madeira e, se possível, preferindo tratar-se de carvalho francês. Há quem defenda que o castanho faz vinho mais puro, menos influenciado pela madeira, na cor, no sabor e no aroma.

O fendimento, rachando o tronco em quatro partes, respeitando o veio dos toros, garante estanquicidade das aduelas. As ripas de madeira são colocadas em pilhas ou grades, em quadrado ou em triângulo, em cima de três ou quatro pedras, ao sol, à chuva e ao vento, que é o melhor tratamento para a madeira, pois os meios artificiais encarecem o produto e tornam a madeira mais quebradiça.

Depois de surribar, plantar, podar, cavar, sulfatar e vindimar, é preciso transportar as uvas e depois armazenar o vinho nas melhores condições.

Os tanoeiros têm como Orago Santo António de Lisboa e, pela grande importância da sua arte, chegaram a ter, perante a realeza, certos privilégios que a seguir relatamos.

Um facto histórico, que atesta a dignidade de que se revestiam os mestres de tanoaria, ocorreu em 1383, quando o tanoeiro Afonso Anes Penedo conseguiu aliciar o povo e a burguesia de Lisboa, a apoiarem a proclamação do Mestre de Aviz, como Regedor e Defensor do Reino.

Também no livro, de 1920, Memórias do Mata-Carochas, o Dr. Antão de Vasconcelos (estudante brasileiro que na segunda metade do século XIX passou a sua irreverência pelas ruas de Coimbra), refere que o Dr. António Jardim foi tanoeiro e que os seus dois irmãos (um lente de Universidade, com exercício no Paço e outro negociante, gerente da Companhia do Gás e bem colocado) privavam em plano superior à do mano tanoeiro do qual se foram segregando. Sendo assim, o tanoeiro sentiu-se ferido na nobreza do seu honrado trabalho, resolveu subir pelo estudo, doutorando-se em Direito e acabando como lente catedrático da mesma Faculdade.

Pois quando D. Pedro V esteve em Coimbra, sabedor desta história, quis conhecer o Dr. Jardim, que mandou dizer que só aceitaria essa alta mercê se Sua Majestade se dignasse aceitar as suas homenagens na sua oficina de tanoeiro. O rei aceitou e foi recebido pelo Dr. Jardim em trajes de trabalho, na sua própria oficina onde, suspensos por um cabide, estavam o hábito talar de lente, a borla e o capelo. Por essa ocasião o Rei agraciou, com carta de conselho, o Dr. Jardim, que nunca deixou de ser tanoeiro. A paixão era tal que saía da aula e ia trabalhar na sua oficina, de tal modo que, aquando da exposição no Palácio de Cristal, no Porto, o Dr. Jardim expôs uma tanoaria e ganhou a medalha de ouro.

Estes artífices e os seus antepassados merecem que as suas memórias ganhem presente, tenham futuro e que as atuais e futuras gerações descubram esta arte e engenho. Com vista a alguns conceitos de tanoaria ousamos relatar de seguida operações em madeira conducentes à produção das aduelas, das vasilhas e dos arcos.

LAVRAR, TORNEAR, VAZAR, ESQUIVIR, JUNTAR, PAREAR, BASTIR, CORTAR, CHANFRAR, PERFURAR, CRAVAR, DESCRAVAR, REPUXAR, ENCAVILHAR, RISCAR, RODEAR, EMPALHAR, ARRUNHAR, PAREJAR, RABOTAR, GEBRAR.

A nossa recolha passou por Paramos, Esmoriz, Maceda, Ovar, Palaçoulo (Miranda do Douro), Viseu, Pampilhosa do Botão (Mealhada), Carapinheira (Montemor-o-Velho), Santa Comba Dão, Tábua, Treixedo, Lousã, Figueiró dos Vinhos, Pombal, Cartaxo, Vila Nova de Gaia (incluindo a Real Companhia Velha), Carrazeda de Ansiães, Felgueiras, Santa Maria da Feira, Sabrosa, Alenquer, Torres Vedras, Loures, Bucelas, Mafra, Sobral de Monte Agraço, Arruda dos Vinhos e Miranda do Corvo.

Em Alcobaça visitámos o Museu Nacional do Vinho; em Anadia, visitámos o Museu do Vinho; na Vidigueira e em muitas outras localidades já só as pessoas mais idosas se lembravam dos antigos tanoeiros.

Não podemos deixar de assinalar que em Urzelhe, concelho de Miranda do Corvo, se situava a Adega da Rainha. A voz popular diz que a Adega da Rainha pertenceu à Rainha Santa Isabel e ao Convento de Santa Clara.

Mal ou bem, essa relação é referida à Rainha Santa Isabel e não ao Mosteiro de Celas, mas poderia a dita adega já ser da realeza, ainda antes de D. Dinis, pois, D. Sancho I começou por doar ou coutar em Urzelhe, Lamas e Lobazes, sendo certo que foi sua filha, D. Sancha que fundou o Mosteiro de Celas.

Os proprietários, Jerónimo Ramos Falcão e filho, Lucas Ramos Falcão, ofereceram ao Museu da Tanoaria uma muito antiga “chave” ou tornadoura, tornadoira ou tornadura em castanho. Esta servia para moldar as vergas de vime ou as varas de castanho, destinadas à arcadura das vasilhas, antes dos arcos serem em ferro.

Curiosas são estas referências à volta do vinho e dos mosteiros e que se mantêm no imaginário dos residentes nestes meios rurais. Para terminar, dois apontamentos referentes aos tanoeiros de Portugal.

Da coleção fazem parte peças com dezenas de anos e que continuariam, em muitos casos, a ficar ao pó, aos ratos, à chuva e cobertas de silvas, mato ou teias de aranha. Desta forma, ficarão à guarda da Associação de Desenvolvimento e Formação Profissional de Miranda do Corvo, que fará a sua proteção, com tanto carinho, como protege diariamente os deficientes a seu cargo. Esta associação sabe que está a proteger as ferramentas com que trabalharam os tanoeiros de Portugal. Pensamos que, uma ou outra peça, poderá ser secular, como sucede com o compasso em ferro (o de maiores dimensões que encontrámos).

Em homenagem aos Tanoeiros de Portugal, colaborando com os propósitos da Associação de Desenvolvimento e Formação Profissional de Miranda do Corvo e com a Autarquia de Miranda do Corvo, minha mulher e eu, oferecemos com o maior gosto e carinho, depositando a coleção em boas mãos, do Dr. Jaime Ramos, digno Presidente da Direção da ADFP e da Dr.ª Fátima Ramos, à data ilustre Presidente da Câmara Municipal.”

Miranda do Corvo, 28 de Maio 2006

Joaquim Leitão Couto (Médico)